27º Liderança em tempos de pandemia

Olá, olá!

Continuamos na série sobre o COVID-19, mais conhecido por coronavírus. Desta vez, vamos falar de um tema difícil: liderança em tempos de crise, neste caso, liderança em tempos de pandemia, algo para o qual não estávamos verdadeiramente preparados.

Para este tema, o convidado especial uma pessoa muito especial: Pedro Vieira, CEO da Life Training, Coach, palestrante, autor de vários livros, um dos quais já li e que se chama “De A para B: Introdução ao Coaching“, com uma linguagem extremamente acessível, recomendado a todas as pessoas que procurem saber mais sobre desenvolvimento pessoal.

Fica aqui mais uma vez o agradecimento especial por ter aceite ser entrevistado para o podcast Bela Questão!

Antes de mais, vamos começar por apresentar o Pedro Vieira. O que gostarias de acrescentar sobre o teu percurso, o que achas que te define com pessoa? Como te descreverias?

Acho que a descrição mais relevante, neste momento, tem mesmo a ver com o facto de há 13 anos ter ingressado profissionalmente no mundo desenvolvimento pessoal. Desde o final de 2007, estou a trabalhar como como couch e isso põe-me todos os dias em contacto com pessoas que estão a lidar com turbulência, dificuldades e desafios. Se nestes dias parece que, de repente, toda a gente está a lidar com desafios, no dia a dia, a maior parte de nós está em turbulência e em crise. Estamos é, momentaneamente, todos com o foco comum.

Há uma alteração do contexto que nos toca a quase todos, em simultâneo. Mas a maior parte das pessoas passa por estas crises, com com muita regularidade, no seu trabalho, nos relacionamentos, na saúde e nas finanças.

Acho que, aqui, o papel ou o ponto de vista de um couch pode ser particularmente relevante porque estamos todos os dias a lidar com isto. Acho que este é o comentário mais relevante para acrescentar a este contexto inicial.

Curiosamente, antes de seres coach, já estavas numa empresa e estudaste economia. Podes fazer aqui um contexto de qual é que era a tua profissão anterior?

Estudei economia e depois trabalhei durante uma série de anos numa grande empresa do mercado de saúde, do fitness. Tive várias funções na empresa, comecei inicialmente por ser vendedor, depois tive uma série de funções de gestão e acabei a gerir um número alargado de clubes e de colaboradores. Foi, aliás, durante esse trajeto que eu fui descobrindo o coaching e aquilo que podia fazer por mim, nesses três níveis que tu apresentaste, logo no início da conversa:  O que é que pode fazer por mim, pessoalmente, Pedro? O que é que pode fazer pelo meu entorno mais próximo, pela minha família? E o que é que pode fazer pela pela minha equipa de trabalho? Que eu tinha na altura.

Os resultados foram tão interessantes, quando eu comecei a beneficiar inicialmente da ajuda de uma coach. Foi mesmo abrir-se um novo mundo, descobrir coisas que nem sequer sabia que existiam sobre mim e sobre os outros. Isso tornou-se tão apaixonante, que acabou por desembarcar nesta nova profissão, que eu tenho há 13 anos.

Já agora, podes dar um exemplo de qual foi a descoberta mais incrível que fizeste?

Uma das descobertas mais incríveis, particularmente relevante para os dias que correm, em que tive assim o momento “Uau!”, foi entender que havia claramente dois tipos de coisas na minha vida: as que eu controlava e podia influenciar e as que eu não controlava.

Isso é tão óbvio, quando pensamos nisso. Nós não controlamos tudo. Podemos investir imenso tempo a pensar sobre as coisas que não controlamos, a analisá-las, a fantasiar sobre elas, a ter medo delas, mas elas são imunes à nossa influência, precisamente porque nós não conseguimos controlá-las.

Há outras coisas que conseguimos controlar, ou pelo menos achamos que o conseguimos fazer, nem que seja parcialmente, e que conseguimos influenciar. Essas, sim, se pela sua natureza são influenciáveis, quando nós começamos a pensar sobre elas, a observá-las, a aprender e a testar coisas diferentes, permitem-nos criar novos resultados. 

Isso é tão óbvio, hoje em dia, para mim, mas na altura não era. Senti-me extremamente “totó” quando fiz estas descobertas. Estávamos a falar de alguém que se estava a aproximar dos 30 anos de idade, a gerir uma equipa de trabalho e que na altura já era pai. 

De repente, comecei a confrontar-me, pela primeira vez, com estas grandes questões de desenvolvimento pessoal: “Tu estás a falar muito sobre isto. Isso é uma coisa que tu controlas? Não. É uma coisa que consegues influenciar? Não. Então, o que é que ganhas de estar sempre a pensar sobre isto agora?”. Parece tao óbvio, mas só se torna óbvio depois de nós fazermos essa pergunta. 

Isso é verdade e, por acaso, já numa conversa dentro de um avião me disseram isso. Só que às vezes é difícil de uma pessoa absorver. Por exemplo, eu tenho algum receio de andar de avião e já me disseram: “tens medo, mas podes fazer alguma coisa? Estamos aqui em cima, podes fazer alguma coisa? O teu medo pode resolver alguma coisa? Então, relaxa”. É um bocado por aí, mas depois, no dia-a-dia, uma pessoa esquece-se disso e, com esta pandemia que nós estamos agora a viver, isso acaba por ganhar uma dimensão ainda maior.

As notícias causam stress, a crise económica que poderá ficar acentuada causa stresse e nós acabamos por ficar absorvidos por tudo aquilo que nós não podemos controlar. O que nós podemos controlar é a grande bela questão! 

1ª parte: Liderarmo-nos a nós mesmos

Entrando aqui pela primeira bela questão sobre ferramentas para aprendermos a liderar a nossa mente, a inteligência emocional, a mente e o coração, o que é que tu nos recomendas, no contexto desta pandemia, para termos um equilíbrio mental?

Há duas coisas muito importantes. Há imensas coisas importantes, como é óbvio, mas nós estamos aqui num momento que não é o melhor para aprender sobre desenvolvimento pessoal. Isto é como alguém que quer aprender a nadar, quando já está no mar alto e com ondas enormes. 

Tenho notado muito que muitos dos meus alunos de coaching, de programação neurolinguística, que me andam a ouvir há muitos anos a falar sobre estes temas, me têm enviado muitas mensagens a dizer: “Eu até tenho lidado relativamente bem com estes tempos” ou “Eu tenho lidado relativamente bem com a incerteza, por causa das ferramentas que tenho à minha disposição”. 

Agora, em s.o.s., para quem se pergunta: “por onde é que eu começo?”, há  duas coisas importantes.

Por coincidência, já falámos na primeira, que é ganhar esta noção do que é que eu controlo no meio disto.

Há coisas que eu controlo e que dependem de mim. Posso proteger-me, lavar as mãos, evitar situações de risco, falar com a família para que ela evite situações de risco. Isto são coisas que eu posso fazer. Posso re-equacionar o que é que está a acontecer no meu trabalho, procurar descobrir novas formas de trabalhar, ou investigar se há novos produtos ou serviços em que eu possa apostar.

Há coisas que dependem mim e outras que não. Essas coisas são como o avião: é deixá-las ir, porque se nós não conseguimos influencia-las, elas vão seguir o seu o seu curso e nós vamos tendo cuidado, conforme vão aparecendo. Isto é muito importante. Acho que é será talvez até coisa mais importante. 

Costuma-se dizer “para onde vai a tua atenção flui a tua energia”. 

Se a tua atenção vai para coisas que tu não controlas, rapidamente vais entrar num estado de desespero, insuficiência e ansiedade. Precisamente porque estás a colocar toda a atenção naquilo que não controlas. Fazer o contrário, que é prestar atenção a coisas que dependem minimamente mim, ou dependem parcialmente de mim, no mínimo, dá-me uma sensação diferente. Dá-me a sensação de que eu estou a fazer alguma coisa para me aproximar dos sítios a que eu quero chegar. Sendo que os sítios onde eu quero chegar são, provavelmente, a segurança, o bem-estar, a tranquilidade. Essa é a primeira coisa que eu acho que é mesmo muito importante.

Há outra que é decisiva, até para que esta possa realmente funcionar, que é aprender a diferença entre aquilo que está realmente a acontecer e aquilo que é especulativo.

O que é que está realmente a acontecer? O que é que é informação fidedigna? Nós estamos aqui no meio de uma pandemia e temos uma quantidade enorme de informação à nossa disposição. Vemos os meios de comunicação social a disparar para todos os lados, entramos nas redes sociais e toda a gente dá opiniões, toda a gente dá “bitaites” e, às vezes, torna-se difícil discernir o que é que está realmente a acontecer. 

Isso é uma pergunta-chave de coaching: o que é que está realmente acontecer, para eu me afastar da especulação e me aproximar daquilo que é claramente uma observação, que é uma descrição?

Repara que nós, neste momento, estamos todos a lidar com os nossos governantes, e digo nossos, não é de Portugal, é do mundo inteiro, que tiveram e estão a tomar decisões que são muito difíceis. Muitas dessas decisões estão a ser tomadas um bocado no ar, porque não há informação suficiente. Por exemplo, nós estamos todos a partir do princípio que devemos evitar ajuntamentos de pessoas. Por isso, é que estamos a apostar em manter as pessoas resguardadas em casa, mas se eu utilizar um método puramente científico não há nenhum estudo que comprove cabalmente que os ajustamentos de pessoas contribuem para o avanço da pandemia.

Com a informação temos disponível, tomamos a melhor decisão que conseguimos, então torna-se muito importante discernir o que é que é mesmo real, o que é que está mesmo a acontecer, daquilo que é uma especulação. (13:11)

Por exemplo, quando alguém diz: “vamos todos morrer”, isso não é factual, não está a acontecer. O que é que está realmente acontecer? Há pessoas doentes, isso está a acontecer. Há um vírus que foi identificado e que está a aparecer em muitas pessoas. Isso está a acontecer. Já apareceu em determinada zona. Isso está a acontecer. Isso é informação factual e é com base nessa informação que eu depois vou tomar as minhas decisões. 

Muita gente está muito perdida porque está num mar de informação, grande parte da qual é especulativa, fantasiosa. São alucinações e loucuras. Tenho lido todo o tipo de teorias da conspiração, as coisas mais rocambolescas e nós sentimo-nos perdidos, nesses momentos. 

É, por isso, que é bom usar aqui um conjunto de filtros, fazer perguntas sobre a veracidade e qualidade de informação que chega até nós: “Isto é verdade?”, “Isto faz sentido?”, “Quem é que poderá estar a divulgar boa informação neste momento?”, “Quem são os especialistas?”, “Com quem é que eu posso aprender?”. São perguntas muito importantes em qualquer momento da nossa vida. Mas em momentos em que nós sentimos que a nossa vida, a de pessoas de quem gostamos ou o bem-estar da população, no geral, pode estar em causa, é ainda mais importante ir atrás de informação de qualidade.

Faz todo sentido. A minha tese de mestrado é sobre literacia mediática. Tive a oportunidade de fazer um estudo com a população adulta, que é mais difícil porque normalmente os estudos que existem são sobre as crianças, e uma das grandes premissas da literacia mediática é defender que toda a população, nesta era digital, tem que ter as ferramentas necessárias para ter um sentido crítico que lhe permite distinguir, lá está, o que é especulativo do que é que é real. 

Resumindo, há dois pontos-chave: distinguir o que é que a pessoa controla daquilo que não controla e conseguir ter também competências de pensamento crítico para conseguir lidar da melhor forma com toda a informação que tem disponível. 

Há imensas mensagens que estão a circular no WhatsApp que os jornalistas estão a chamar a atenção e a dizer: “isso não é real”. Então, aqui também fica uma nota que os jornalistas têm um papel fundamental e deveriam ser as fontes primárias, mais do que as mensagens por WhatsApp e mensagens que possam circular nas redes sociais, porque a profissão deles é informar e como tal serão eles especialistas. 

2º Nível: Como liderarmos dentro da nossa casa?

Passamos para o segundo nível, sobre ser capaz de liderar no contexto doméstico, tendo em conta os cenários em vivemos com outras pessoas. Fala-se muito agora que casais, por exemplo, das duas uma: ou entram em divórcio ou então descobrem toda uma nova paixão. Como é que são as relações familiares? Como é que é lidar com os filhos? Como é que nós conseguimos ter boas ferramentas, boas estratégias, para manter alguma liderança, tendo em conta este contexto em que estamos. O que é que tu recomendarias?

Acho que estamos todos ou quase todos a viver esta situação do isolamento social em casa, seja com as nossas famílias ou a morar sozinhos. Tenho visto muitos especialistas, até da minha área do coaching, do desenvolvimento pessoal, a darem muitas dicas sobre como se pode organizar a família. Tenho fugido dessas dicas, porque nós vivemos mesmo em contextos muito diferentes. 

Sinto-me um privilegiado porque estou numa casa num sítio agradável, tenho espaço, gosto de estar com os meus filhos, com a minha companheira e damo-nos todos bem. Mas há pessoas que estão confinadas a espaços que são demasiado pequenos para a família. Há pessoas que estão dentro de um espaço com alguém de quem não gostam ou podem estar dentro de um espaço com alguém que é abusador ou violento, podem estar no espaço com crianças pequenas e teletrabalhado com crianças pequenas é um jogo diferente.  

O meu lembrete é que, quando estamos perante outras pessoas, muitas vezes, temos vontade de influenciar o seu comportamento. Gostávamos de dizer às pessoas para estarem mais tranquilas ou mais calmas, para fazerem alguma coisa ou para estarem mais ativas. Nesses momentos, é muito bom lembrar as sábias palavras de Ghandi: “Sê a mudança que queres ver no mundo”.

Se eu gostava, por exemplo, que em minha casa houvesse mais tranquilidade, a minha principal ferramenta é a minha própria tranquilidade. Se eu gostava que as pessoas fizessem mais coisas, se gostava que a família fosse mais organizada ou tivesse mais rotinas, se isso for importante para mim, então, a minha melhor ferramenta é o meu próprio comportamento.

A melhor ferramenta que eu tenho uma influenciar os outros é o meu próprio comportamento. 

Esse é um lembrete que pode ser particularmente difícil nestes momentos, porque se calhar eu gostava que as outras pessoas estivessem mais tranquilas, quando eu próprio não consigo estar tranquilo. Só que é para aí que poderá ir a minha atenção: que o que é que eu posso fazer agora para eu me sentir como eu me gostaria de sentir? Sabendo que nós estamos em situações muito difíceis e para alguns isto é muito mais fácil do que para o outros. 

Eu moro num sítio onde consigo correr sem me encontrar com ninguém e, uma vez por semana, vou fazer compras. As minhas saídas são essas, mas eu compreendo que para algumas pessoas o não sair de casa, nem que seja durante 10 minutos, para ir comprar o pão, é perder o único momento que têm para respirar, para saírem de um ambiente tóxico, para terem o mínimo de rotina física. 

As minhas dicas de como liderar este tempo são muito voltadas para o indivíduo: “O que é que eu posso fazer para mostrar o comportamento que também gostaria que os outros tivessem?” Essa é a forma mais eficiente de liderar,  que é liderar pelo exemplo, sabendo que isto é difícil, nesta altura. (20:20)

Tenho procurado estar particularmente ativo, nestas semanas, porque muitas pessoas precisam de apoio e há pessoas que recorrem a mim, que acham que eu as possa apoiar ou dar o exemplo. Lembro-me a mim e a essas pessoas que, com todas as dificuldades que temos à nossa volta, há algumas coisas que nós controlamos. 

Se eu estou ansioso e gostaria de ter tranquilidade à minha volta, vou ter de encontrar uma forma para ficar mais tranquilo. O que é que eu controlo? Se calhar, controlo o tempo que passo nas redes sociais. Tenho feito uma limpeza linda do meu do meu feed das redes sociais, porque este é o momento em que eu digo: “há aqui pessoas que só estão infetar, contagiar e chatear, não preciso seguir estas pessoas”. 

É cuidar de mim e do meu estado emocional, para depois poder estar em em circunstâncias de liderar e de influenciar os outros. Isso é um clichê, não é? Tratar primeiro de mim para depois poder tratar dos outros, mas, nestas circunstâncias, ele é ainda mais óbvio, fica ainda mais fortalecido. (21:57)

Se conseguirmos estar tranquilos, os outros também tendem a estar tranquilos, se estivermos mais ativos os outros também tendem as estar mais ativos. Por exemplo, eu gosto muito de fazer exercício físico e claro que, durante este tempo em estou mais confinado, treino todos os dias. Corro um bocadinho e treino em casa. Tenho um saco de boxe e equipamento para treinar. Como o faço todos os dias, os meus filhos naturalmente também acabam por fazê-lo. Toda a gente cá em casa está a treinar mais do que treinava antes e olha que eles são todos super ativos. Duas ou três vezes por dia, está a família toda a treinar. E e eu não andei a chatear ninguém, não a fazer nenhuma tabela. Vão atrás do exemplo.

Pode ser muito difícil, sobretudo se eu gostava que o ambiente fosse mais tranquilo, mas eu próprio estou ansioso. Aqui, é rodear-me também de um entorno que seja positivo, é ver boas coisas, é seguir pessoas nas redes sociais que me podem ajudar e passar uma mensagem que me apazigua ou ajuda.

E faz todo sentido! Por exemplo, as corridas libertam endorfinas, fiquei a saber, recentemente, numa conversa com uma médica. Por acaso, sou uma privilegiada também. Comecei a correr muito mais agora, porque felizmente tenho um descampado por aqui perto e comecei a correr. É quase como se fosse garantindo que tenho a tal reserva de endorfinas, que não deixo chegar até ao fim. Mas há outras formas, mesmo para quem não pode correr sem se cruzar com ninguém. Se há dinheiro, porque não mandar vir uma passadeira? Se não há dinheiro, há tantos vídeos, neste momento, até os ginásios estão a colocar aulas online gratuitas.

Mas sabes que mesmo aí eu sinto-me um privilegiado porque eu faço exercício físico há 30 e muitos anos e sou muito autónomo. Consigo treinar sozinho, fazer um treino de musculação ou crossfit sozinho. Faço isso há anos. Mas há pessoas têm muita dificuldade em fazê-lo porque nunca o fizeram. Para algumas pessoas é mesmo difícil. É por isso que eu estou a ser aqui cauteloso.

Quando nos disserem: “ok, agora podes sair de casa”, eu vou sair de uma forma física incrível, porque eu estou a treinar 3 vezes por dia! 

E não faz mal? treinar tantas vezes por dia? 

Não, porque faço treinos diferentes. Jogo andebol e basquetebol com os meus filhos, vou correr… ainda por cima estou a cuidar mais da minha alimentação. No meu dia-a-dia, dito normal, como muitas vezes fora de casa. Agora, como é óbvio, estou a comer sempre em casa, portanto, a alimentação melhorou a sua qualidade. Mas sinto-me um privilegiado porque eu consigo fazer isso, agora será que toda a gente consegue fazer isso? Nem todos. 

Estamos a falar de estar em casa, mas há pessoas que não podem estar em casa. Os profissionais de saúde não podem estar em casa, muita gente que trabalha na distribuição alimentar não pode estar em casa, mesmo que quisessem, e para alguns estes momentos estão a ser muito difíceis.

Imagina o que é ter filhos em casa, mas tu não estás lá. Conheço alguns casos, ambos profissionais de saúde, que têm filhos pequenos e, de repente, ficam em situações muito difíceis. 

É por isso que darmos dicas é muito bonito, só que há dicas que são muito difíceis de seguir. Prefiro olhar mais para cuidarmos do nosso estado emocional e encontramos formas de cuidar dele.

Tenho procurado ajudar nestes dias. Tenho publicado meditações online, que têm ajudado uma série de pessoas e estão a ser muito populares. Estou a trabalhar agora num projeto e vamos disponibilizar meditações e áudios com técnicas de PNL e hipnose só para profissionais de saúde, porque é algo que eu tenho experiência a fazer e que é mesmo muito útil.

Para nós nós liderarmos o nosso entorno, se calhar, até passando para o terceiro nível que tu propuseste sobre como liderar uma equipa ou negócio, primeiro temos que cuidar do nosso estado emocional.

É muito difícil liderar uma equipa se estiver ansioso, desgastado, deprimido ou angustiado. É importante, primeiro, cuidar do meu estado e conectar-me outra vez com os meus recursos e, depois, influenciar a partir daí.

3ª parte: Liderar uma equipa ou um negócio

Entramos na terceira fase, que é uma das mais desafiantes, atualmente. Quando se faz liderança de equipa, num contexto mais empresarial, estamos a falar de lidar com toda a pressão, receios e ansiedades de outras pessoas, que acabam por ficar por cima de quem as está a liderar. Para esses casos, quais é que são os aspetos que a pessoa deve preservar e ter em conta para conseguir lidar da melhor forma com a situação? Conseguir manter a equipa unida, conseguir até inovar no negócio, seja de grande ou pequena dimensão? O que dirias, sendo que já ficou muito claro que não há fórmulas mágicas, nem receitas, nem medicamentos. 

Uma recomendação muito importante é que, em momentos como este, a nossa necessidade psicológica da segurança fica muito abalada.

Não sabemos o que vai acontecer,  há pessoas que não sabem se no final do mês têm ou não lugar no trabalho, há freelancers que ficaram sem rendimento de um momento para o outro. As pessoas que trabalham em grandes empresas entendem que, ainda por cima, não é só o que acontece aqui é também o que acontece com a empresa no resto do mundo. Sabemos que há notícias todos os dias sobre o que os bancos vão fazer, o que é que o governo vai fazer. 

Acho que uma estratégia muito importante, decisiva mesmo, para o líder da equipa é ele ser totalmente transparente em relação à informação que tem ao seu dispor. Como as pessoas já estão muito inseguras, se eu ainda fizer jogos de que há coisas que eu não posso partilhar, isso só traz ainda mais insegurança.

Neste momento, o líder de uma equipa, que pode ser por exemplo uma chefia intermédia dentro uma grande organização, o que tem que fazer todos os dias é dizer à equipa: “O que eu sei, neste momento, é isto, isto e isto” e ser muito bom também a utilizar um dos primeiros recursos que nós falámos aqui na nossa conversa, que é: “Isto é o que eu sei e que é factual, também se fala nisto, nisto e nisto, mas isso é especulativo, não é real, não é sustentável, é uma conversa que anda por aí, portanto isso não interessa para nada neste momento. O que interessa é o que está realmente acontecer e o que está acontecer é isto, isto e isto”.

Às vezes nestes momentos, o líder acha que tem que salvar psicologicamente a sua equipa e então começa a usar e a abusar dos clichês como: “vai correr tudo bem” e “só temos que acreditar uns nos outros”. Claro que vai correr tudo bem, só que, neste momento, o mais importante não é isso.

O mais importante é dar informação sobre o que está acontecer, sobre os passos que temos projetados, pôr as pessoas a discutir sobre quais são as possibilidades e dar-lhes também espaço para partilharem as suas inseguranças.  

Uma parte das inseguranças são baseadas em especulações. “Estou inseguro porque ouvi dizer que a empresa vai despedir pessoas”. Se calhar, se houver uma comunicação transparente, como líder da equipa até posso dizer: “não” ou posso dizer: “é uma possibilidade, está em cima da mesa, mas o que está realmente acontecer é isto”.

Em momentos de turbulência, o que mais ajuda é ter uma comunicação transparente e, principalmente para quem lidera pequenos negócios ou para quem lidera equipas dentro de grandes empresas, não vestir o papel de super-homem: “Tenho que aguentar isto pela minha equipa, tenho que os proteger”. Esta proteção, muitas vezes, faz com que o líder seja o primeiro a cair, mental e psicologicamente.

Volto outra vez às perguntas iniciais: “O que é que está a acontecer realmente e o que é que depende de mim?” Há coisas que não dependem de mim. Eu não sei o que é que vai acontecer. Não sei o que é que o governo vai decidir, se o vírus demora 2 meses, 3 meses ou um ano a ser controlado. Eu não sei. Portanto, não vale a pena querer proteger as pessoas excessivamente.

Vale a pena usar uma comunicação transparente e colocar-me num estado onde eu posso liderar com otimismo, determinação e confiança. Mas não é fazer de conta que eu sinto essas coisas. É encontrar uma forma de as sentir realmente. 

Também lembrar-me que eu, como líder, também posso pedir ajuda e também posso mostrar insegurança. Por exemplo: “sinto-me inseguro em relação ao próximo passo a dar, por isso, é que quero conversar convosco sobre as possibilidades”. Isto é uma estratégia perfeitamente legítima de liderança e que, nestes momentos, é muito mais eficiente do que fazer de conta que sou o líder que sabe tudo ou ser exageradamente otimista, fazer de conta e dizer: “ Ah, não, isto daqui a um mês está resolvido e vai ser tudo bom, isto é como estar de férias”. Isso também não ajuda.

Sou um crente na comunicação honesta, aberta e transparente. Nestes momentos, isso é triplamente importante. 

Muito obrigada pelas recomendações e pela tua visão! Agora que nos aproximamos do final e que conseguimos cobrir os três níveis de liderança, gostava de te perguntar se te recordas de alguma crise deste género? Não de uma pandemia, mas uma crise possa ser uma referência de algo que já tenha acontecido no passado, desde que tu existes, ou não, pode ser mesmo no tempo da pré-história, e que lições se tiram daí?

A crise mais recente de que todos nos lembramos foi a crise financeira de 2009/2010, que abalou muito a nossa economia. Não foi nada tão rápido e súbito como a crise com que estamos a lidar agora e também não nos sentimos postos em causa. Não sentimos a nossa sobrevivência posta em causa, mas tudo o resto estava lá presente. A insegurança estava presente, a ideia de que a economia podia colapsar de um momento para o outro estava presente. Alterações súbitas  do estilo de vida estiveram presentes. Muita gente perdeu o emprego, ficou durante anos em situações profissionais muito estagnadas ou perdeu perspectivas que dava como muito seguras.  

O que é que eu aprendi há 10 anos? Em 2009, eu estava numa fase de empreendedorismo. A Life Training já existia, já existiam outras empresas e outros negócios a que me tinha ligado. O nosso terceiro filho nasceu em 2010, o segunda em 2008 e o terceiro em 2010. Estava numa fase onde essa insegurança exterior me atingiu com muita força. Atingiu as minhas estruturas, os meus negócios, a minha família. 

Uma das coisas que retive para utilizar em futuras crises foi que tem de haver calma. As coisas evoluem como têm que evoluir, não estão todas debaixo do nosso controlo e podemos ter calma, porque tudo passa. A nossa vida eventualmente passará. O nosso tempo passará.

Podemos ter calma e aprendi a ter calma e essa grande confusão de há 10 anos e está-me a permitir também viver esta confusão de agora com calma, com tranquilidade. Sabendo que, se calhar, daqui a 5 ou 10 anos, nós estaremos outra vez a falar no teu podcast e a dizer: “Agora que apareceu o novo vírus, agora que apareceu uma nova crise, lembras-te quando foi no tempo de coronavírus, o que é que nós aprendemos, na altura?” 

Estas crises são cíclicas. Claro que estas crises deixam marcas, mas elas elas também nos lembram que, utilizando uma metáfora que eu já explorei aqui na nossa conversa, há momentos em que o mar vai ficar revolto, em que as marés vão puxar. Há momentos, em que as ondas nos vão colocar à prova. Nesses momentos, ou aprendemos a nadar, sabemos boiar e deixar a tempestade passar ou sabemos nadar para nos pôr em segurança.

Muita gente só se lembra de “aprender a nadar” quando está à rasca e já quase sem conseguir respirar.

Eu, que sou um instrutor desenvolvimento pessoal, proponho às pessoas que elas aprendam com calma e segurança, no seu ambiente, a fazerem um curso, a ler livros ou a ouvir podcasts como o teu. Reflitam sobre si próprias, reflitam sobre aquilo que querem, sobre aquilo que estão a fazer, sobre as suas estratégias e que também considerem que algumas coisas que nós damos como certas são as nossas expectativas e que elas não são tão certas como parecem. Podem abanar a qualquer momento, mesmo coisas que para nós nunca iriam abanar.

Quando estamos nos processos de desenvolvimento pessoal, é muito importante aprendermos a sentirmo-nos bem, mesmo que as expectativas deixem de estar cumpridas.

A minha aprendizagem com a última crise foi sobretudo essa: mesmo nos momentos de crise, podemos estar bem, calmos e tranquilos, porque tudo passa.

Vou fazer aqui um pergunta que acho que mais pessoas estão a fazer. Quando uma pessoa diz: “tem calma”, tu não ficas mais irritado? 

Não, não fico porque aqui eu falo de uma calma que é uma calma espiritual. É uma calma que vem do sítio onde tu sabes que nada muda, onde tu sabes que isto está a acontecer lá fora é só uma ilusão. 

Vou dar-te um exemplo claro. Estamos a ter esta conversa depois de estarmos, mais ou menos, há 10 dias mais ou menos 12 dias em isolamento. A maior parte das pessoas, quando recebeu estas notícias que as escolas vão fechar, as empresas vão fechar, abanou muito. Vemos pessoas momentaneamente a alterar a sua estratégia e a comportarem-se de forma diferente, mas depois de 10, 12 dias os velhos registos emocionais já estão a voltar. As pessoas que normalmente estão ansiosas, agora estão ansiosas. As pessoas que gostam de dizer mal dos políticos, agora estou a dizer mal dos políticos. As pessoas que gostam de brincar, agora estão a brincar. As pessoas que gostam de estudar, agora estão a estudar. 

Os velhos comportamentos já começaram a outra vez a emergir e quando nós percebemos isso, percebemos que não é aquilo que está lá fora que é realmente importante. O que é realmente importante são as estruturas que tenho ao meu dispor para lidar com aquilo que está lá fora. É nesse sentido que podemos dizer: “tem calma”. 

 “Tem calma” porque lá foram estão a acontecer coisas, como sempre acontecem. As coisas vão continuar a acontecer, as boas, as más, as grandes ou as pequenas. Olha para ti, faz as belas questões, como tu gostas de fazer, reflete sobre ti e a partir desse desse sítio, que é um sítio mais equilibrado, mais calmo, mais tranquilo, mais centrado, entra então em contacto com o que está lá fora e faz aquilo que tiveres que fazer, aquilo que achares que tens que fazer. Mas com calma, não como se tudo estivesse em causa, porque isto é uma ilusão. Não sei se a conversa agora, de repente, ficou muito espiritual, mas é para esse sítio onde eu tendo a ir. No outro dia, estava a ter uma conversa com a Mia, a minha companheira, sobre como é engraçado que a maior parte das pessoas age, em momentos como este, como se nós fossemos sair daqui vivos, desta experiência, que se chama vida. Como se isso fosse possível. Se não fosse o coronavírus ou se não fosse outra coisa éramos imortais. 

Não, a nossa vida tem dor, tragédia, sofrimento e essas coisas todas acontecem. O que se trata aqui é de nós observarmos as nossas estruturas psicológicas e percebemos: “como é que eu lido com isto, como é que eu gostaria de lidar com isto e o que é que poderia fazer para lidar de forma diferente?”

Pessoalmente, prefiro lidar com calma e tranquilidade, sendo que também abano, fico inseguro, triste, revoltado, também sinto injustiça ou tristeza, mas a questão é: “o que é que eu vou fazer com isso?”. Acho que é nesse território que o desenvolvimento pessoal acontece. É nesse território que nós realmente aprendemos a “nadar” e podemos aprender a nadar,  metaforicamente, de uma forma que nos permita depois lidar com as grandes tempestades, tal como também podemos lidar depois com aqueles momentos fantásticos em que o mar está flat e podemos só estar a boiar, a nadar e divertir-nos, porque esses momentos também vêm aí e também acontecem.

Totalmente alinhada com a tua visão. Até por isso é que procuro fazer estas belas questões, para encontrar esse caminho, que não é bem espiritual, mas é um caminho que acontece aqui dentro (na cabeça). No fundo, os nossos problemas também só acontecem aqui dentro.

Agora, ia pedir para me ajudares a resumir os principais pontos daquilo que foi dito. Em relação ao primeiro nível da liderança:

Dois aspetos: manter a atenção nas coisas que nós controlamos ou que podemos influenciar e aprender a discernir bem o que é real, o que é que está realmente acontecer, daquilo que é só especulativo. 

No segundo nível, é liderar pelo exemplo…

e cuidarmos do nosso estado. Conseguirmos cultivar em nós o estado que nós gostaríamos que as pessoas à nossa volta também pudessem ter. 

E no terceiro terceiro…

A minha aposta é: comunicação aberta, transparente, honesta para assim darmos um mínimo de tranquilidade, confiança e segurança às outras pessoas.

Tens alguma recomendação, (para além do podcast Inspiração para uma Vida Mágica, do livro “De A para B: introdução ao coaching”, e das meditações que tens disponíveis online) de algum livro?

Acho que podia dar aqui uma série de referências, mas para quem nunca leu, “O poder do Agora”, de Eckart Tolle, é um livro que pode ajudar algumas pessoas a terem uma perspectiva diferente daquilo que acontece com elas a cada instante.

Fica a recomendação e muito obrigada! Resta-me agradecer pela disponibilidade, pelas belas respostas e fica o convite para nos próximos dias estamos aqui os dois atentos, se houver mais questões. Mais do que nunca temos de ser uns para os outros. Muito obrigada por teres aceite o convite!