126º O Discurso do Rei e Demóstenes nos ensinam sobre as dificuldades de comunicação?

Um dos maiores oradores da história tinha dificuldades em falar. E um rei, cuja voz haveria de ser ouvida por milhões de pessoas, era gago.

Demóstenes e Jorge VI estão separados por mais de dois mil anos, viveram circunstâncias incomparáveis e chegaram até nós por caminhos muito diferentes: um através dos discursos que fizeram dele uma das maiores referências da oratória da Antiguidade; o outro, para muitos de nós, através de um filme extraordinário, O Discurso do Rei, distinguido com quatro Óscares.

E, no entanto, há qualquer coisa nas duas histórias que me acompanha há muitos anos.

O que me deslumbra é tudo aquilo que acontece à volta da dificuldade de comunicar: o medo, o nervosismo, a insegurança e a frustração; a forma como essas emoções se manifestam no corpo, interferem com o pensamento e condicionam os nossos comportamentos; e, posteriormente, o treino, as estratégias, a perseverança e a confiança que se vai construindo à medida que alguma coisa começa, progressivamente, a mudar.

Quando sabemos o que queremos dizer, mas comunicar se torna difícil

Há dificuldades de comunicação que são evidentes para os outros e há muitas outras que ninguém vê.

Uma apresentação para a qual nos preparámos durante semanas, uma entrevista, uma reunião importante ou uma conversa em que sabemos perfeitamente o que queremos dizer e, subitamente, sentimos que não estamos a conseguir comunicar à altura daquilo que sabemos.

Podemos dominar profundamente um assunto e, perante uma audiência, sentir que o pensamento perdeu a organização que tinha cinco minutos antes; podemos saber exatamente o que queremos dizer e ouvir a própria voz mudar.

Existe, por vezes, uma distância surpreendente entre aquilo que sabemos, aquilo que queremos comunicar e aquilo que, naquele momento, conseguimos efetivamente fazer chegar ao outro.

É precisamente nessa distância que as emoções se tornam particularmente relevantes.

De Jorge VI a Demóstenes

Em O Discurso do Rei, acompanhamos Jorge VI num percurso em que a dificuldade de falar não desaparece simplesmente porque ele precisa que desapareça. Há treino, repetição, respiração, articulação, progressos e recuos; há também medo, nervosismo, frustração e a responsabilidade crescente de alguém cuja voz acabaria por ser ouvida por milhões de pessoas.

Mais de dois mil anos antes, Demóstenes percorreu um caminho extraordinariamente diferente e, simultaneamente, curioso nas suas semelhanças.

Plutarco descreve um homem que, antes de se tornar uma das grandes referências da oratória da Antiguidade, tinha uma voz fraca, uma fala pouco nítida e dificuldades respiratórias que lhe interrompiam as frases. Demóstenes treinou intensamente: recitava discursos com pequenas pedras na boca, trabalhava a voz enquanto corria ou subia terrenos inclinados, exercitava a capacidade respiratória e praticava a declamação diante de um espelho.

Quando conhecemos alguém depois de uma competência estar extraordinariamente desenvolvida, temos dificuldade em imaginar essa pessoa antes dela.

Ouvimos alguém comunicar com eloquência, clareza e segurança e concluímos quase instantaneamente: tem jeito, tem presença, nasceu para isto.

Vemos o resultado e, inadvertidamente, transformamo-lo na explicação do próprio resultado, tornando invisíveis as primeiras tentativas, as horas de prática, os erros, o desconforto e a perseverança que existiram antes.

O que acontece ao nosso corpo quando ficamos nervosos?

O nervosismo não existe apenas no pensamento.

A respiração altera-se, o coração acelera, a musculatura fica mais tensa; as mãos podem transpirar ou tremer, a boca fica seca e a voz pode perder alguma estabilidade.

Depois começamos a reparar nesses sinais.

E aqui pode acontecer algo particularmente interessante: uma parte da atenção que deveria estar na mensagem, na audiência ou na pessoa que temos à nossa frente passa a estar concentrada em nós próprios.

Será que perceberam que estou nervoso?

E se me esqueço?

E se não sei responder?

Podemos acabar a desempenhar dois papéis simultaneamente: somos a pessoa que procura comunicar e aquela que fiscaliza cada detalhe da própria comunicação.

Quando me aconteceu perante 300 pessoas

Continuo a ficar nervosa antes de apresentações públicas e reconheço nesse nervosismo, sobretudo, um sentido de responsabilidade: quando alguém disponibiliza uma parte do seu dia para me ouvir, quero que esse tempo tenha valor.

Recentemente, fui convidada para dar uma conferência no Algarve perante cerca de 300 pessoas. Pouco antes de começar, surgiu um problema técnico e a apresentação que tinha preparado simplesmente não abria.

Enquanto o técnico procurava resolver a situação e os minutos passavam, conseguia reconhecer aquilo que estava a acontecer: tensão, alterações na respiração, mãos a tremer e um pensamento que começava rapidamente a antecipar diferentes cenários.

Foi precisamente nesse momento que recorri a estratégias que conheço e, sobretudo, que já tinha praticado.

Respiração. Atenção ao corpo. Regulação da tensão. E uma pergunta essencial: o que está, neste momento, sob o meu controlo?

Eu não conseguia fazer o equipamento funcionar. Conseguia decidir o que faria se ele não funcionasse.

E a decisão foi simples: faria a conferência sem apresentação.

Essa mudança permitiu-me deslocar a atenção daquilo que não controlava para aquilo que dependia de mim.

A conferência acabou por correr muito bem.

O mais interessante, porém, aconteceu antes desse resultado: eu senti todas as emoções. A experiência não fez desaparecer o nervosismo, o stress ou a tensão; deu-me recursos para reconhecer aquilo que estava a acontecer e regular a forma como essas emoções poderiam interferir com a minha comunicação.

Quando o nervosismo disputa a nossa atenção

No episódio partilho também uma investigação de Christopher Jones, Russell Fazio e Michael Vasey, da Ohio State University, sobre a relação entre ansiedade de falar em público, controlo atencional e desempenho.

Entre os resultados existe um particularmente interessante: a relação negativa entre ansiedade e qualidade do discurso era significativa entre as pessoas com menor controlo atencional, enquanto entre aquelas com valores médios ou elevados essa relação não atingiu significância estatística.

Isto não significa que controlar a atenção faça desaparecer a ansiedade. Coloca-nos, contudo, perante uma pergunta muito útil:

Quando fico nervoso, para onde vai a minha atenção?

O mesmo estudo encontrou ainda uma diferença reveladora entre a perceção dos participantes e a dos avaliadores externos. Numa escala de zero a dez, os participantes avaliaram as próprias apresentações, em média, com 3,02; os avaliadores atribuíram-lhes 4,66.

Quando estamos nervosos temos acesso a tudo aquilo que acontece dentro de nós — a mão que tremeu, a palavra em que hesitámos, a frase de que quase nos esquecemos. Quem nos ouve não vive essa experiência interna.

A intensidade daquilo que sentimos não corresponde necessariamente àquilo que os outros receberam da nossa comunicação.

A comunicação também se treina

Jorge VI treinou. Demóstenes treinou. Eu continuo a treinar — e continuo a ficar nervosa antes de falar em público.

Talvez seja precisamente esta uma das ideias que mais me interessa explorar neste episódio: conhecer uma técnica não significa conseguir utilizá-la sob pressão.

Saber como respirar não garante que nos lembremos de o fazer quando o coração acelera; conhecer profundamente os princípios de uma boa comunicação também não significa que consigamos aplicá-los com a mesma facilidade quando estamos nervosos, irritados ou inseguros.

Entre saber e conseguir fazer existe treino.

E é nesta relação que Inteligência Emocional e comunicação se encontram de uma forma muito concreta: aquilo que sentimos manifesta-se na voz, no ritmo, no corpo, na atenção, nas palavras que escolhemos e nas decisões que tomamos enquanto comunicamos.

No episódio 126 do Bela Questão, partimos das histórias de Jorge VI e Demóstenes para observar essas dificuldades, compreender aquilo que as emoções fazem à nossa comunicação e, sobretudo, pensar nas estratégias que podemos treinar para os momentos em que comunicar se torna mais difícil.

Porque podemos sentir medo, nervosismo, insegurança ou frustração e, ainda assim, preservar uma escolha essencial:

não entregar às emoções o volante da nossa comunicação.