As emoções nascem connosco ou aprendem-se? com a pedopsiquiatra Dra. Ana Teresa Prata

As emoções nascem connosco ou aprendem-se? com a pedopsiquiatra Dra. Ana Teresa Prata

Se há uma pergunta que parece simples, mas abre um mundo inteiro, é esta: as emoções nascem connosco ou aprendem-se? Neste episódio do Bela Questão, inauguro uma nova temporada com o lema "ciência das emoções para todos" — e trouxe uma convidada que, para mim, é mesmo especial: a Dra. Ana Teresa Prata, pedopsiquiatra (psiquiatria da infância e adolescência).

A ideia foi mergulharmos no que é biologia e no que é ambiente: genes, relação com os cuidadores, desenvolvimento do cérebro, vinculação, trauma e adolescência. E sim, com uma audiência exigente ao colo: a Alice, prova viva de que o colo importa.

A bela questão do episódio

Será que as emoções nascem connosco ou se aprendem?
E a conversa começou logo por aqui: nós nascemos com emoções. Não nascemos com todas as emoções complexas (um bebé não sente rancor), mas existe um leque básico essencial — e é precisamente esse leque que permite a ligação com os adultos. E é pela relação que as emoções se desenvolvem, ganham nome e sentido.

Ou seja: somos seres emocionais desde o início, e vamos aprendendo a compreender o que sentimos, com ajuda.

Infância, adolescência e "o cérebro só acaba mais tarde"

Uma das coisas mais importantes para pôr tudo em perspetiva foi esta: o cérebro está em desenvolvimento até cerca dos 25 anos. Aos 18, somos "adultos" no papel; biologicamente, não há uma luz a acender.

E isto é especialmente relevante porque a adolescência costuma começar com a puberdade, que pode estar a surgir cada vez mais cedo, mas a maturação cerebral não está a antecipar-se. Resultado: corpo a acelerar e cérebro ainda imaturo, com tudo o que isso implica na regulação emocional, tomada de decisões e avaliação de risco.

O que acontece no cérebro: não é "crescer massa", é afinar ligações

Houve aqui uma ideia que vale ouro: anatomicamente está lá tudo quando nasce. O que muda é a forma como o cérebro se organiza:

  • Nascemos com o máximo número de neurónios que alguma vez teremos.
  • Nos primeiros anos, há um crescimento enorme de ligações entre neurónios.
  • Depois vem a "poda": o cérebro vai reforçar o que usamos e deixar cair o que não é alimentado.

E isto explica tanto: aprendizagem rápida, intensidade emocional, birras (que não são "mal-criação"), e até porque repetir experiências é tão determinante no desenvolvimento.

"Há bebés mais difíceis?" Temperamento não é culpa dos pais

Aqui ficou uma mensagem que alivia muita gente: existem bebés com temperamentos diferentes, e isso é inato.

Há bebés mais agitados, mais sensíveis a estímulos, mais chorões, mais tranquilos. E isto importa por um motivo enorme: culpa parental. Nem tudo é "porque fizeste X" ou "porque não fizeste Y". O que podemos fazer é aprender a lidar, ajustar estratégias e perceber que temperamento não é "mau comportamento".

E foi feita uma distinção útil:

  • Temperamento: vem connosco (mais ligado ao inato).
  • Personalidade: vai-se construindo na relação connosco e com os outros (mais influenciada pelo ambiente).

Os 3 primeiros anos: essenciais, mesmo sem memórias conscientes

Mesmo não tendo memória "como adultos", os primeiros anos são fundamentais porque somos relação. O trabalho dos cuidadores é traduzir o que o bebé sente no corpo:

"Estás com fome."
"Estás com sono."
"Estás desconfortável."

Essa repetição ensina a criança a dar sentido ao que sente e a reconhecer estados internos. E aqui entra uma ideia central: o bebé não precisa só de comer e dormir — precisa de relação.

A conversa tocou ainda em mitos que continuam vivos: "deixa chorar que habituas", "treino de sono", "está a manipular". O ponto aqui não é moralismo: é ciência e desenvolvimento. O bebé aprende, por repetição, se pode ou não contar com alguém quando está em aflição.

Vinculação: segura vs. insegura, e o impacto nas relações adultas

Falámos de vinculação como a ligação com a figura principal, que dá segurança para explorar e voltar. E uma coisa importante foi dita com clareza: vinculação insegura não é uma sentença. Não há uma relação direta "vinculação insegura = doença mental no futuro". Serve para compreender o funcionamento e ajustar estratégias.

Mas também ficou claro que padrões repetidos podem deixar marcas na forma como:

  • lidamos com medo de abandono
  • confiamos (ou não) em relações
  • interpretamos zanga, limites e proximidade

Trauma: episódico e prolongado

Outra distinção útil:

  • Trauma episódico (ex.: acidente)
  • Trauma prolongado (ex.: violência doméstica, negligência, maus-tratos, bullying, invalidação emocional repetida)

E uma ideia forte: trauma não é "decidir seguir em frente". Muitas vezes são reações fisiológicas, presas ao corpo. Por isso, além de psicoterapia e, quando necessário, psiquiatria e medicação, há experiências que ajudam a reconectar ao presente (atividade artística, grupo, dança, canto, pertença, corpo).

Adolescência: por que é tudo tão intenso?

Adolescência é intensidade "para o bom e para o mau". Há:

  • turbilhão hormonal
  • cérebro ainda em maturação (especialmente a zona que trava impulsos)
  • transformação do corpo, identidade, relações, pares

E uma frase que ficou: os pais são super-heróis até aos 9 anos. Depois, é saudável que a referência se desloque para os pares, com autonomia progressiva. A relação "porto seguro" não se constrói na adolescência; começa-se a construir na infância.

Quando é que é sinal de alerta pedir ajuda?

A resposta foi direta e muito prática: o sinal básico é alteração de funcionamento.

Se as emoções/comportamentos/pensamentos passam a dominar o dia-a-dia e impedem dormir, comer, ir à escola, aprender, relacionar-se — é alerta.
E olhar com atenção para:

  • sono (muitas vezes é a raiz)
  • quedas significativas no rendimento escolar
  • irritabilidade que compromete relações e traz descontrolo/agressividade
  • mudanças consistentes e não apenas "fase"

Estigma da pedopsiquiatria e da medicação

Sim, existe estigma. E ficou claro: ir a pedopsiquiatria não significa automaticamente medicação. E quando há medicação, muitas vezes é para conter sintomas e permitir que a intervenção (psicoterapia, mudanças, estratégias) funcione melhor, não para "resolver tudo com comprimidos".

Pergunta dos mecenas: Os Maias, genética e epigenética

A pergunta trouxe uma resposta que resume o episódio inteiro: tudo o que é saúde mental é mistura de natureza e ambiente.

Falou-se ainda de:

  • predisposição genética (como risco aumentado)
  • fatores protetores (sono, evitar consumos, gestão de stress, ambiente)
  • epigenética como "o código existe, mas nem tudo é lido/ativado"
  • eventos adversos na infância (ACEs) como fator de risco forte para saúde mental e física

À Queima-Emoção (perguntas rápidas)

  • Livro: Porque Dormimos
  • Série: Sex Education
  • Pessoa inspiradora: Virginia Woolf
  • Lei para literacia emocional: investir em creches e infantários, com formação
  • Emoção mais difícil: vergonha
  • Conselho emocional: escutem mais do que tentem resolver
  • Rotina reguladora: ver o mar
  • O que gostava de ter aprendido: "tenho direito a zangar-me"

Fecho

Este episódio abriu muitas portas: genes, ambiente, vínculo, adolescência, trauma, e aquilo que afinal podemos controlar (muito mais do que achamos).

Se queres que eu volte a sentar-me com a Dra. Ana Teresa Prata para ir mais a fundo, diz-me nos comentários do episódio ou nas redes.

Seguimos a conversa no Instagram: Amália Carvalho (com dois "o" no final)
E a Dra. Ana Teresa Prata também partilha conteúdo no Instagram.

Isso é uma bela questão.


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