Neste episódio do podcast Bela Questão, coloquei uma pergunta que nos leva diretamente aos lugares menos visíveis da nossa mente: o que é que o nosso inconsciente nos ensina sobre as emoções?
Para explorar esta questão, conversei com o Dr. João Carlos Melo, médico-psiquiatra, com formação em grupo-análise, e autor do livro Lugares Escondidos da Mente. A conversa levou-nos aos fundamentos da conceção do aparelho psíquico, à ideia de censura entre sistemas mentais e à forma como padrões emocionais se repetem na nossa vida sem que tenhamos consciência clara das suas motivações.
Consciente, pré-consciente e inconsciente
Para compreendermos o inconsciente, é importante recuar à conceptualização feita por Freud no início do século XX. Nessa primeira formulação do aparelho psíquico, distinguem-se três sistemas: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Entre estes sistemas existe uma censura.
Entre o inconsciente e o pré-consciente há uma censura forte. Já entre o pré-consciente e o consciente a passagem é mais fácil de compreender. O nosso cérebro está constantemente a receber estímulos de todo o tipo, mas aquilo de que tomamos consciência é apenas uma ínfima parte desses estímulos — e já organizados. Existe, portanto, uma seletividade.
O pré-consciente inclui conteúdos que não estão conscientes naquele momento, mas que podem tornar-se conscientes em determinadas circunstâncias. Por exemplo, quando a pessoa está mais cansada, sob efeito de álcool ou muito relaxada, pode dizer coisas que estavam mais escondidas. Já os conteúdos do inconsciente não são acessíveis dessa forma espontânea.
Padrões que se repetem sem sabermos porquê
Uma das formas através das quais o inconsciente se manifesta é através de comportamentos cujas motivações não conhecemos.
Há pessoas que escolhem sempre o mesmo tipo de parceiro, seja em relações amorosas, seja em amizades. Podem justificar com azar, com coincidência ou com o facto de as pessoas serem aparentemente diferentes. No entanto, há algo em comum que se repete. Pode existir uma tendência para escolher determinado tipo de pessoa, ou a própria pessoa colocar-se em situações que levam o outro a agir de determinada maneira.
Esses padrões formam-se pelas vivências ao longo da vida, pelas relações familiares, pelas experiências precoces. E repetem-se. Por vezes de forma compulsiva, no sentido de haver uma força interna que leva à repetição, mesmo quando a pessoa gostaria de agir de outra forma.
A repetição de experiências desagradáveis
Surge então uma questão importante: porque é que repetimos experiências que não foram agradáveis?
Durante muito tempo pensou-se que seria uma fatalidade. Mas pode existir uma outra leitura. Tal como uma criança que vê uma cena assustadora num filme e, apesar do medo, quer voltar a vê-la para se habituar e conseguir superá-la, também nós podemos repetir situações numa tentativa de familiarização e eventual domínio.
Foi dado o exemplo de uma menina que cresceu com um pai alcoólico que batia na mãe. Em adulta, pode escolher um homem que repete esse padrão. Por vezes a pessoa fica enredada nessa repetição. Noutras situações, pode existir uma fantasia de conseguir mudar o outro, de reparar aquilo que não conseguiu reparar na infância.
Autossabotagem e medo do sucesso
Outro exemplo apresentado foi o da autossabotagem. A vida corre bem, o curso está quase concluído, falta apenas um exame, mas a pessoa não estuda. Quer terminar, mas não estuda. Aqui pode estar presente um medo inconsciente: o medo do sucesso e das responsabilidades que vêm associadas a essa nova fase da vida.
A pessoa não sabe que tem esse medo. Ele manifesta-se através do comportamento.
Emoções demasiado intensas
Quando sentimos uma emoção com intensidade desproporcional — uma irritação enorme, uma raiva intensa, uma ansiedade excessiva perante alguém — pode fazer sentido perguntar: o que é que esta pessoa tem que provoca isto em mim? O que é que está a ser acordado dentro de mim?
Há situações que exigem um espaço terapêutico estruturado, sobretudo quando os conteúdos são mais complexos e podem desorganizar a pessoa. Mas há muitas situações do dia a dia em que é possível fazer um trabalho de autorreflexão, questionando as próprias reações e pedindo feedback a outras pessoas.
O exemplo do líder agressivo
Falámos também do contexto profissional. Um líder que explode em reuniões e utiliza o poder de forma agressiva pode parecer forte, mas pode existir medo por trás dessa atitude. Pode tratar-se de baixa autoestima, de necessidade de proteger o poder ou de receio de perder controlo.
Para que exista mudança, é necessária humildade. A pessoa tem de querer fazer esse trabalho. Não conseguimos gerir as emoções dos outros; a mudança depende sempre da própria pessoa.
Lugares sombrios e lugares luminosos
No livro Lugares Escondidos da Mente é explorada a dualidade entre o lado sombrio e o lado luminoso da natureza humana. Todos temos partes agressivas. Ciúme, inveja e outras emoções difíceis fazem parte da condição humana. Assumi-las permite discerni-las melhor.
E quando conseguimos reconhecer essas partes, tornamo-nos mais capazes de aceder às partes luminosas: alegria, generosidade, compaixão, amor, amizade, cooperação, gratidão, humildade, empatia, tranquilidade e reconhecimento.
Foi também sublinhada a importância de sabermos aceitar elogios. Muitas pessoas não sabem reagir a um elogio. Aceitar, agradecer e, mais tarde, saborear esse reconhecimento é uma forma de fortalecer a parte luminosa e de permitir que as relações se aproximem.
Quando procurar ajuda?
Um critério relevante é o impacto. Quando uma situação emocional começa a afetar significativamente a qualidade de vida, as relações ou o trabalho, pode ser importante procurar ajuda profissional.
Uma terapia não deve promover dependência. O objetivo é que a pessoa se torne progressivamente capaz de fazer esse trabalho consigo própria.
Uma mensagem final
Há sempre outro lado das coisas. Não devemos ter medo das partes escondidas da mente. Aquilo que existe é humano. Mesmo nas partes mais sombrias pode existir algo luminoso que pode ser encontrado.