O que Jay Shetty nos ensina sobre comunicação
Há pessoas que admiramos pela forma como comunicam, mas raramente paramos para perceber exatamente o que fazem para comunicar tão bem.
É o tom de voz? A forma como contam histórias? A capacidade de escutar? A serenidade com que respondem? A maneira como fazem perguntas, utilizam os silêncios ou conseguem fazer com que a pessoa que está à sua frente se sinta verdadeiramente interessante?
Jay Shetty é uma das minhas referências de comunicação e acompanha-me há muitos anos. Li os seus livros, escuto com frequência o seu podcast e sigo com admiração a evolução e o percurso que tem construído. E eu, que também sou profissional de comunicação e tenho um podcast há vários anos, reconheço que aprendi muito com ele.
Aquilo que fui aprendendo com Jay ultrapassa o universo dos podcasts. Podemos transportá-lo para o trabalho, para a relação com um chefe ou colegas, para uma conversa em que precisamos de defender uma opinião, inspirar alguém ou simplesmente saber escutar.
Porque a comunicação é uma competência e, como qualquer competência, pode ser observada, praticada e treinada.
Um grande comunicador não aparece feito
Quando olhamos para Jay Shetty hoje, é fácil vermos apenas o resultado: um dos nomes mais reconhecidos na área do bem-estar, grandes entrevistas e um comunicador muito confortável naquilo que faz.
Mas há um percurso de treino por detrás disso.
Jay treinou ativamente a capacidade de comunicar. Fez formação em oratória, praticou, participou em competições e, quando foi monge, teve também momentos de partilha que lhe proporcionavam plataformas reais para falar diante dos outros. Depois começou a palestrar e continuou esse caminho.
Portanto, aquilo que temos não é simplesmente alguém que nasceu extraordinariamente bom a comunicar. Temos um percurso de treino de oratória aliado à meditação, à imersão no budismo e, mais tarde, à capacidade de fazer a ponte entre esse conhecimento ancestral, a experiência e aquilo que a ciência comportamental nos permite estudar.
Storytelling: quando uma ideia ganha uma imagem
Uma das características que mais me fascinam na comunicação de Jay Shetty é a capacidade de contar histórias.
É um pouco como acontecia com Jesus através das parábolas: pegar num tópico e transportá-lo para uma história que contém uma moral, uma imagem ou uma ideia que qualquer ser humano consegue compreender.
Jay fala frequentemente de emoções, conflitos interiores, dilemas e relações, assuntos que poderiam tornar-se abstratos, e consegue trazê-los para uma linguagem acessível, acrescentando depois ciência.
Há uma história que já o ouvi contar em diferentes contextos e de que gosto particularmente: a história da canoa.
Uma pessoa está a fazer uma viagem e encontra um rio enorme que precisa de atravessar. Para chegar à outra margem, constrói uma canoa robusta. Aquela canoa é necessária e cumpre perfeitamente a função para a qual foi construída.
Quando chega à outra margem, continua a viagem, mas leva a canoa consigo.
Com o passar do tempo, a canoa começa a pesar. Aparecem árvores, caminhos e obstáculos e aquilo que tinha sido fundamental para atravessar o rio começa agora a dificultar-lhe o percurso.
Até que chega o momento em que precisa de perceber: tenho de deixar esta canoa para trás.
Gosto deste tipo de histórias porque uma ideia que poderia exigir uma longa explicação passa a ter uma imagem. Nós vemos a canoa, percebemos o peso e percebemos também que deixá-la para trás não significa que ela não tenha sido importante.
Talvez esta seja uma das grandes aprendizagens para quem quer comunicar melhor: não basta dominar uma ideia; precisamos de encontrar a história, a metáfora ou o exemplo que permita ao outro apropriar-se dela.
O silêncio também comunica
Há outro traço de Jay Shetty que me fascina: a tranquilidade e a serenidade com que comunica, sobretudo porque não se precipita para preencher os silêncios.
É comum um convidado falar durante vários minutos sem Jay fazer qualquer tipo de interrupção. E isto, na verdade, é raro.
Temos dificuldade em lidar com os silêncios que aparecem entre perguntas e respostas, particularmente quando estamos a ter conversas mais profundas, quando falamos daquilo que sentimos ou daquilo que verdadeiramente é importante para nós.
Quando aparece esse silêncio, tentamos fazer alguma coisa com ele: fazemos rir, puxamos a conversa para nós, interrompemos, preparamos mentalmente aquilo que queremos dizer a seguir ou simplesmente tentamos preencher o espaço.
E acho que a experiência de Jay enquanto monge budista pode ter tido influência nesta capacidade. A meditação ensinou-lhe a estar com o silêncio, a prestar atenção àquilo que sente e aos pensamentos que aparecem. Há qualquer coisa de muito interessante no espaço que conseguimos criar entre aquilo que uma pessoa acaba de dizer e o nosso impulso imediato para responder.
Mas é precisamente isso que me interessa: pegar numa característica que é nossa, trabalhá-la, treiná-la e perceber de que forma pode transformar a nossa comunicação.
Porque, às vezes, os silêncios numa conversa difícil são a diferença entre uma pessoa partilhar aquilo que realmente a preocupa ou mudar de assunto e regressar a uma conversa banal.
A Inteligência Emocional aplicada à comunicação também se manifesta aqui: na capacidade de reconhecer o nosso impulso para responder, interromper ou aliviar o desconforto e, ainda assim, escolher conscientemente aquilo que fazemos a seguir.
Não sejas o interessante, sê o interessado
Há outra característica que reconheço muito em Jay Shetty: o entusiasmo que demonstra perante aquilo que está a aprender com a pessoa que tem à frente.
Quando alguém faz uma partilha, é frequente vê-lo reconhecer que nunca tinha pensado daquela forma, mostrar interesse ou fazer uma pergunta de aprofundamento que leva a pessoa a desenvolver ainda mais a ideia.
E isto faz-me lembrar um princípio que encontrei há muitos anos em Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie: em vez de tentares constantemente ser interessante, interessa-te verdadeiramente pelos outros.
Carnegie conta uma conversa com uma senhora já com alguma idade. Em vez de falar de si próprio, interessou-se por ela, pela casa e pelas histórias associadas aos objetos. Aquela mulher sentia-se profundamente ignorada e aquele homem, praticamente um estranho, deu-lhe atenção e mostrou interesse real.
A determinada altura, ela quis oferecer-lhe um carro valioso que tinha e que não queria deixar aos próprios familiares.
O carro é quase irrelevante. Aquilo que me ficou desta história foi outra coisa: o impacto que pode ter alguém sentir que, finalmente, existe uma pessoa verdadeiramente interessada naquilo que tem para dizer.
Carnegie conta ainda outra história de que gosto muito. Num jantar, sentou-se ao lado de um botânico. Não percebia particularmente de botânica, mas interessou-se genuinamente pelo assunto, fez perguntas e passou grande parte da conversa a ouvi-lo falar sobre uma área pela qual era apaixonado.
No final, o botânico disse ao anfitrião que Carnegie era um conversador fascinante.
E eu adoro esta história porque Carnegie tinha passado grande parte do tempo a escutar. Não precisou de dominar a conversa para ser recordado como um excelente conversador.
E isto liga-se profundamente àquilo que vejo em Jay Shetty: a atitude de quem está verdadeiramente interessado no que a outra pessoa tem para dizer, de quem não entra numa conversa apenas à procura da oportunidade para mostrar aquilo que sabe e de quem consegue escutar uma resposta e permitir que ela altere o caminho da própria conversa.
Como aprender com os bons comunicadores
E talvez seja aqui que eu queira chegar.
Não quero que termines este artigo apenas a pensar que Jay Shetty comunica extraordinariamente bem. Isso já sabemos.
O que gostaria é que começássemos a desenvolver uma capacidade de observação mais apurada sobre as pessoas que admiramos.
Porque muitas vezes admiramos alguém, mas não sabemos exatamente o que admiramos.
Dizemos: "é um excelente comunicador". Mas já parámos verdadeiramente para pensar porquê?
Estamos a falar de oratória? Da postura corporal? Da forma como conduz uma conversa? É o tom de voz, o storytelling, a capacidade de escutar, a qualidade das perguntas, a serenidade, o entusiasmo, a forma como ocupa o silêncio ou como nos faz sentir que aquilo que dizemos é importante?
E depois vem a pergunta seguinte: o que é que eu consigo aprender com isto?
Não para me transformar naquela pessoa. Não para copiar a sua personalidade. Mas para retirar, por camadas, as competências de comunicação de alguém que admiro e perceber o que posso trazer para a minha própria forma de comunicar.
Pode ser uma pessoa conhecida, alguém que gostas de ouvir ou alguém do teu contexto profissional que consideras um excelente comunicador.
Da próxima vez que pensares isso, não fiques apenas pela admiração.
Observa. Pergunta-te porquê. Desmonta.
Percebe como essa pessoa escuta, reage, utiliza o corpo, conta histórias, escolhe palavras, ocupa o silêncio, demonstra curiosidade, discorda e influencia.
Porque talvez possamos aprender muito mais sobre comunicação quando deixamos de olhar apenas para aquilo que as pessoas dizem e começamos verdadeiramente a observar a forma como comunicam.
Foi isso que eu fiz, ao longo dos anos, com Jay Shetty.
E continuo a fazer.