E se o medo fosse uma onda gigante? Com João Macedo

E se o medo fosse uma onda gigante? Com João Macedo

Houve uma frase que ficou a ecoar logo no início desta conversa: “foi um desastre absoluto”. O João Macedo estava a falar de um campeonato que correu mal, de uma lesão que “quase podia ter custado a vida” e, acima de tudo, de um momento em que a pressão à volta — o buildup, as expectativas, o ruído — lhe roubou a capacidade de canalizar o medo. E é precisamente por isso que este episódio é tão valioso: porque as maiores lições raramente nascem dos dias perfeitos. Nascem dos dias em que nos vemos obrigados a voltar atrás e perguntar: o que é que eu não consegui gerir aqui?

Neste episódio do Bela Questão, a bela questão é simples e gigante ao mesmo tempo: e se o medo fosse uma onda gigante? Para a explorar, convidei alguém que vive (literalmente) em diálogo com o medo. O João foi Top 5 mundial no circuito de ondas gigantes de remada em 2012/2013, foi o primeiro português e europeu a entrar num campeonato mundial de surf de ondas gigantes de remada, e hoje traz-nos uma coisa rara: não apenas inspiração, mas ferramentas com nomes, com corpo, com contexto e com histórias reais.

O convidado: João Macedo

O João Macedo é surfista de ondas grandes e fundador da Surf Academia João Macedo. Ao longo da conversa, percebemos rapidamente que ele não fala do medo como um conceito abstrato. Fala do medo como matéria-prima diária: medo físico, medo emocional, medo psicológico — e a mistura explosiva que pode acontecer quando tudo isto se junta num dia “fora do normal”.

O medo não desaparece. O medo trabalha-se.

Há um ponto onde o João é muito claro: o primeiro passo é reconhecer que o medo existe. E isto, para mim, toca no coração da inteligência emocional. Porque há pessoas que, à medida que avançam nas suas carreiras, vão “blindando” esta emoção forte e vão procurando zonas de conforto — e as zonas de conforto são importantes, dão estabilidade. O problema é quando essa estabilidade se transforma em bloqueio. Quando a vida nos tira dessa zona e já não temos ferramentas emocionais para lidar com o medo que aparece.

E aqui o João diz algo que eu adorei por ser tão humano: o medo não é só para quem enfrenta ondas de 20 metros. O medo existe no escritório, na família, nas escolhas e nas transições. O medo de falhar, o medo de não ter estabilidade, o medo de não ter segurança financeira, o medo de não conseguir emprego, o medo do futuro. O medo faz parte da existência humana.

Gratidão: a primeira ferramenta “anti-medo”

Quando o João me fala de gratidão, não está a falar de positividade vazia. Está a falar de uma estratégia concreta para transformar uma emoção intensa — medo, stress, dúvida — em algo que pode ser canalizado.

Num dia de campeonato, num dia de ondas gigantes, tudo é mais intenso e tudo está fora da rotina. O que é transformador, diz ele, é conseguir fazer este clique: “estou grato por estar aqui”. Grato por ter sido escolhido, grato por estar naquele momento, grato por ter chegado até ali — e, a partir daí, o resultado final perde força. Não porque deixe de importar competir, mas porque já não é o resultado a decidir o valor daquele dia.

E isto é uma aprendizagem brutal para as nossas “ondas gigantes” pessoais. Porque há momentos em que a nossa vida nos põe uma oportunidade à frente — um novo emprego, um novo projeto, mudar de país, ser pai, ser mãe — e nós chamamos-lhe medo. O João chama-lhe também oportunidade. E esse reenquadramento muda tudo: não apaga o medo, mas dá-lhe utilidade.

Preparação: a base… e o excesso que pode virar contra nós

A seguir vem a preparação. O João defende isto com a clareza de quem vive de performance: pessoas com sucesso preparam-se. Um bom aluno prepara-se, um bom atleta prepara-se. Não há boa performance sem treino, experiência, estudo.

Mas ele também faz um alerta importante: há um ponto em que a preparação pode tornar-se excessiva — e o stress da preparação pode ser “demais”. E aqui entra a diferença entre estar preparado e estar preso no fight or flight, naquele modo de sobrevivência pura onde já não há espaço mental para fazer escolhas com perspectiva.

E foi aqui que eu senti que a conversa começou a tocar em algo muito universal: preparar é importante, mas chega um momento em que temos de largar.

“Largar a corda”: o momento em que ficas sozinho

No surf de ondas gigantes, há um momento muito concreto a que o João chama “largar a corda”. É quando estás atracado à mota de água e, de repente, estás sozinho. É o salto. É o ponto de não retorno.

E ele faz questão de dizer: não é “saltar” por saltar. É saltar na onda certa. E para chegar à onda certa tens de não te deixar levar pelo medo. Tens de estar presente. Limpo. Focado. Recetivo às indicações da equipa. Porque, na descida, não há espaço para dúvida racional. Numa fração de segundos, tens de pôr “todas as células do corpo” ao serviço do que está a acontecer.

Eu ouvi esta parte a pensar no que acontece connosco nos nossos dias importantes: o exame, a apresentação, a conversa difícil, o primeiro dia num novo trabalho, a decisão de mudar. Nós também temos o nosso “largar a corda”. E o medo, se não for trabalhado, entra como ruído.

O dia do desastre: quando o medo não se canaliza

O João contou-me um episódio marcante da época 2016/2017. Ele tinha requalificado para o mundial de remada, estava com performances fortes na Nazaré, havia um build up grande, expectativas, pressão à volta. A ondulação — olhando em retrospetiva — não era ideal, vinha com vento, mas o campeonato avançou.

E “foi um desastre absoluto”. Ele teve uma lesão gravíssima, quase perdeu a vida. Bateu com muita força na cabeça, foi agrafado e ainda voltou para dentro de água. No dia seguinte, o treinador disse-lhe algo que foi um ponto de viragem: “tens de voltar ao campeonato, tens de dar a cara para aquilo que aconteceu”.

A partir daqui, o medo deixa de ser teórico. Passa a ter memória. Passa a ter trauma. E é aqui que o João começa a construir, com tempo, as ferramentas que hoje partilha.

A maior onda da vida: quando a presença vence a aterrorização

Dois anos mais tarde, vem outra tempestade — gigante. O João já tinha feito a transição da remada para o tow-in, com motas de água, e teve de aprender novas skills. Houve até um amigo que lhe disse: “tu nunca vais conseguir fazer isto”. Aquela verdade doeu, mas foi útil. Porque, como ele diz, às vezes pessoas próximas dizem coisas intensas com coragem — e cabe-nos perceber se há ali um ponto que temos de trabalhar.

Nesse dia de ondas gigantes, tudo tinha potencial para correr mal: havia tensão acumulada, erros constantes dentro de água, decisões rápidas, desgaste, prioridades entre equipas, falhas, pranchas perdidas, resgates tensos. E é aqui que o João aponta uma das maiores lições: a magia de uma boa equipa é a capacidade de ultrapassar o erro em tempo real. Um erro acontece. “Ok, qual é o próximo?” Sem entrar numa espiral destrutiva de culpa e dúvida.

Quando chegou a vez dele, veio a onda. Cerca de 25 metros, uma onda “na conversa do recorde”. Ele descreve a descida como “aterrorizante”. Fala da sombra do lip a passar por cima dele, do risco de perder “uma fração” da linha e tudo ficar devastador. E, ao mesmo tempo, diz o mais importante: não pensou nada disso. Esteve presente. Esteve grato por estar ali. Pôs tudo ao serviço do momento. E saiu da onda com sucesso.

Foi um momento de superação pessoal “muito gratificante”. Mas ele fecha com uma frase que eu adoro por ser tão realista: a vida não acaba ali. A seguir continua tudo novo.

As quatro aprendizagens que o João deixa para as nossas “ondas”

Eu pedi ao João que transpusesse tudo isto para quem não surfa ondas gigantes — para quem está a enfrentar outras ondas: mudar de carreira, começar um projeto, dar um salto de fé, ser pai ou mãe, mudar de país. E ele devolveu-nos quatro ideias muito claras, que eu quis guardar quase como um mapa.

A primeira é reconhecer o medo e reconhecer a mudança como oportunidade. “Estou com a oportunidade de mudar.” Isto, diz ele, é o primeiro passo transformador.

A segunda é a preparação — com consciência do limite, para não cairmos na preparação excessiva que alimenta stress.

A terceira é divertir-se (having fun). Parece óbvio, mas ele insiste que, no meio das responsabilidades adultas e profissionais, perdemos facilmente a diversão saudável — e depois procuramos “excessos” para compensar, que acabam por desestabilizar ainda mais.

A quarta é o serviço. Sair da bolha. Servir o outro, servir a comunidade, servir o ambiente. O João dá exemplos simples: recolha de lixo, ajudar um lar de idosos, gestos que nos expõem a outras realidades e nos devolvem gratidão e perspectiva — não para nos culparmos pela sorte que temos, mas para nos lembrarmos da vida que existe para lá do nosso ruído.

E, no fim, ele diz algo que eu precisava mesmo de ouvir: no surf “há sempre mais uma onda”. Mas quando falhamos a onda daquele dia, parece que é o fim do mundo. Isso é falso. As oportunidades voltam. O perigo é quando entramos numa espiral em que deixamos de as ver. E, nesse ponto, as ferramentas deixam de ser “inspiração” e tornam-se sobrevivência emocional.

O que eu levo daqui

Eu fechei este episódio com a sensação de que o medo continua a ser desagradável e intenso — mas pode ser útil. Pode proteger-nos. Pode ajudar-nos a tomar decisões mais apropriadas para a vida que queremos. E pode também empurrar-nos, quando aprendemos a canalizá-lo, para um lugar de presença e de coragem.

Se o medo fosse uma onda gigante, a pergunta não seria “como é que eu faço para não sentir?”. Seria: como é que eu aprendo a largar a corda no momento certo, com gratidão, preparação, equipa e presença?

Se quiseres, deixa nos comentários as tuas belas questões para o João. Eu desafiei-o a responder — e quem sabe se isto não vira uma segunda conversa.