Quando os eleitores se sentem entusiasmados e confiantes, tendem a reforçar hábitos existentes e a comparecer às urnas com apoio ao status quo. Por outro lado, a ansiedade ou o medo ativam o sistema de vigilância, fazendo com que os eleitores prestem mais atenção à informação e possam reconsiderar as suas escolhas.
Isso é uma bela questão.
Olá, olá. Bem-vinda, bem-vindo ao podcast Bela Questão, um espaço onde mergulhamos na ciência das emoções para entendermos melhor o mundo e a nós próprios. Eu sou a Amália Carvalho, comunicadora de ciência, e no episódio de hoje quero trazer-te uma bela questão: qual é a relação entre a política e as emoções? Qual é o papel das emoções nas campanhas eleitorais?
Fomos a votos e os resultados deixaram muitas pessoas surpreendidas. Nas redes sociais, as emoções repetiam-se: tristeza, ilusão, apreensão. Nestas alturas percebemos uma coisa essencial: quando nos faltam ferramentas para interpretar o que estamos a viver, as emoções sobrepõem-se.
E não é por acaso que o pensamento crítico é uma das competências centrais da inteligência emocional. Ele ajuda-nos a transformar emoções em informação útil — aquilo que sentimos passa a poder ser convertido em decisões, comportamentos e maior clareza mental. Tudo isto num contexto em que vivemos rodeados de informação tendenciosa, sensacionalista e cada vez mais polarizada.
Por isso, neste episódio, partilho a minha curadoria de alguns estudos académicos que exploram a ligação entre emoção e comportamento político. Não é para tirar a emoção da decisão — isso é impossível. É para a trazer à consciência.
Emoções e voto: o que nos diz a ciência
Uma das teorias mais conhecidas é a teoria da inteligência afetiva, desenvolvida por cientistas políticos norte-americanos. Esta teoria propõe dois sistemas emocionais que influenciam o comportamento político.
O primeiro é o sistema de disposição, ligado a emoções positivas como entusiasmo e orgulho. Quando este sistema está ativo, os eleitores tendem a reforçar hábitos existentes, manter fidelidades partidárias e apoiar aquilo que já conhecem.
O segundo é o sistema de vigilância, ligado a emoções de valência negativa como medo e ansiedade. Quando este sistema é ativado, as pessoas prestam mais atenção à informação, questionam escolhas anteriores e podem até mudar de preferência política.
De forma simples: entusiasmo reforça; medo interrompe automatismos.
Outra abordagem importante é a teoria das avaliações cognitivas, que distingue o impacto de diferentes emoções negativas. Estudos mostram que a raiva tem um efeito mobilizador muito forte: incentiva a ação e o envolvimento político. Já a ansiedade é mais ambígua. Pode levar à procura de informação e à reflexão, mas quando é excessiva pode gerar retração, indecisão e até afastamento do voto.
Emoções como estratégia de campanha
Um estudo clássico sobre campanhas políticas mostrou algo muito relevante: mudar apenas o tom emocional de um anúncio — imagens ou música — sem alterar o texto, gera respostas completamente diferentes do público. As emoções, por si só, moldam decisões.
Uma descoberta contraintuitiva deste tipo de investigação é que eleitores mais informados podem ser mais suscetíveis à manipulação emocional, porque prestam mais atenção às mensagens e aos sinais emocionais. Outra conclusão interessante é que mensagens positivas de entusiasmo podem ser mais polarizadoras do que mensagens negativas de medo, porque reforçam divisões entre apoiantes e opositores.
E isto ajuda-nos a perceber porque é que emoções negativas como medo e raiva são tão usadas nas campanhas.
O medo ativa vigilância: ameaça económica, criminalidade, imigração, corrupção, perda de identidade. A raiva direciona a culpa para um alvo específico — "nós contra eles", um inimigo, uma elite corrupta. A raiva mobiliza, energiza e incentiva ação imediata. E reforça convicções pré-existentes, aumentando a polarização.
Estudos europeus recentes mostram como partidos populistas exploram sistematicamente estas emoções. A chamada "política do medo" normaliza ameaças e transforma o medo numa ferramenta central de persuasão. Mas importa dizer: todas as forças políticas usam emoções. A diferença está na intensidade e na combinação emocional.
Num contexto digital, este fenómeno é amplificado. Conteúdos que despertam medo ou raiva são mais virais, geram mais interação e são favorecidos pelos algoritmos. O problema é o custo democrático: mais polarização, menos debate saudável e decisões menos informadas.
Emoções positivas também contam
Nem só de medo e raiva vivem as campanhas. Emoções positivas como esperança, entusiasmo, orgulho e empatia também são usadas para inspirar e unir. Um exemplo clássico foi o slogan "Hope" de Barack Obama, que apelava à crença num futuro melhor e à participação num movimento de mudança.
A investigação mostra que mensagens positivas aumentam a intenção de voto entre simpatizantes, mas podem gerar cinismo nos não apoiantes se forem percebidas como propaganda vazia. Ainda assim, há estudos que indicam que um tom positivo, um sorriso ou uma comunicação mais empática conseguem influenciar até pessoas que discordam ideologicamente.
Na prática, campanhas eficazes usam uma mistura emocional: reconhecem desafios reais, mas contrapõem esperança e sentido de possibilidade.
O que podemos retirar daqui
As emoções desempenham um papel central nas campanhas eleitorais. A ciência confirma-o. Elas não são automaticamente manipuladoras nem antidemocráticas — fazem parte de qualquer processo de decisão humana.
O problema surge quando há exploração cínica do medo e do ódio sem conteúdo político substantivo. Aí, cabe-nos a nós ativar pensamento crítico e literacia emocional para não cairmos na esparrela.
Uma ansiedade "saudável" pode até levar um eleitor mais apático a informar-se melhor e a participar. O essencial é saber reconhecer que emoções estão a ser ativadas, porquê, e com que objetivo.
Espero que este episódio te traga algumas ferramentas novas para interpretar o que está a ser dito nas campanhas e para compreender melhor o momento que estamos a viver.
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Obrigada por estares desse lado. E já sabes: quanto a nós, ouvimo-nos no próximo episódio.