Quando o stress comunica por ti
Nem sempre o stress chega com uma explosão. Nem sempre se reconhece numa voz alterada, numa discussão ou num gesto de impaciência tão evidente que já não deixa margem para dúvida. Às vezes, chega quase disfarçado de eficiência: falamos mais depressa, explicamos demasiado, respondemos com uma secura que não nos é habitual ou, pelo contrário, vestimos as frases de uma formalidade tão rígida que deixamos de parecer próximos.
Há uma ideia que me parece particularmente importante: não existe uma gramática universal do stress. Não há um gesto, uma palavra ou um tom de voz que permita concluir, de forma automática, que alguém está sob pressão. Há pessoas que, quando estão tensas, falam sem parar; outras tornam-se quase monossilábicas. Há quem fique mais emocional; há quem pareça subitamente muito racional. Há até quem, sob stress, pareça mais controlado do que nunca. A questão não é procurar uma lista de sinais aplicável a toda a gente. É aprender a reconhecer aquilo que muda em nós.
A assinatura comunicacional do stress
É por isso que faz sentido falar de uma assinatura comunicacional do stress. Uma espécie de desvio em relação à forma como habitualmente comunicamos quando estamos confortáveis, presentes e com margem interna para escolher as palavras. O nosso baseline comunicacional não se encontra numa fórmula. Está no nosso vocabulário, no ritmo a que falamos, no espaço que deixamos para a resposta do outro, na nossa voz, no silêncio, na proximidade ou na leveza com que conseguimos lidar com uma pergunta inesperada. E é a partir daí que podemos fazer uma pergunta muito mais útil do que “será que estou stressada?”: como é que eu deixei de comunicar como comunico normalmente?
Quando respondemos a acusações que ninguém fez
Pensemos numa situação banal de trabalho. Alguém pergunta-nos porque é que uma proposta ainda não saiu. A resposta necessária poderia caber numa frase: “Falta-me validar um dado comercial, sai amanhã.” Mas, de repente, começamos a explicar que a colega Ana tinha enviado uma primeira versão com valores antigos, que entretanto houve uma chamada com o cliente, que foi mais prudente confirmar tudo antes de avançar, que talvez tenha havido um desencontro de informação. A pessoa fez uma pergunta. Nós respondemos-lhe como se tivesse feito uma acusação.
É a tal hiperjustificação: uma fábrica de texto que ninguém nos pediu. E, muitas vezes, não acontece porque não saibamos o que estamos a fazer. Acontece porque o nosso cérebro já está a antecipar o que a outra pessoa pode perguntar a seguir, o que poderá pensar, que crítica poderá fazer, que falha terá de ser explicada. Começamos a responder a cenários que ainda não aconteceram. E, quando damos por isso, já não estamos numa conversa: estamos a tentar defender-nos de uma conversa imaginada.
A antecipação pode ser uma competência valiosa. Ajuda-nos a preparar uma reunião, a identificar riscos, a não deixar pontas soltas. Mas, levada para dentro de cada troca quotidiana, pode retirar-nos presença. Porque, em vez de escutarmos a pergunta que nos fizeram, escutamos todas as perguntas que tememos que nos façam. E isso altera a relação. A outra pessoa pode ter querido apenas uma informação simples; recebe, em troca, um excesso de contexto que a coloca numa posição estranha, quase como se tivesse de nos absolver de alguma coisa.
Quando a comunicação perde água
O stress também pode fazer o movimento contrário: comprimir a linguagem. A informação sobrevive, mas a relação perde água. “Amor, podes trazer o biberão quando vieres?” transforma-se em “Traz o biberão.” Não é uma questão de polidez performativa; é que, em momentos de maior carga, a nossa comunicação pode ficar desidratada. Mantém a função, mas perde tudo aquilo que, habitualmente, revela intenção, cuidado, disponibilidade e ligação ao outro.
A dificuldade é que, quando estamos dentro dessa carga, raramente nos ouvimos com clareza. Achamos que estamos só a ser objectivos. Achamos que estamos apenas a ser rápidos. Achamos que explicámos bem porque não deixámos nenhum detalhe de fora. Mas talvez valha a pena introduzir uma pequena pausa antes de continuar: será que esta pessoa precisa mesmo desta explicação toda? Ou será que estou a tentar garantir, através de palavras, que não vai pensar mal de mim?
Recuperar a medida da pergunta
Por vezes, a resposta mais reguladora não é acrescentar uma técnica sofisticada à conversa. É recuperar a medida da pergunta. Se alguém pergunta porque é que algo ainda não saiu, podemos responder ao que foi perguntado e esperar. “Falta-me validar um dado comercial, sai amanhã.” Se a pessoa precisar de saber mais, perguntará. Dar espaço para a pergunta seguinte não é esconder informação; é deixar de tentar controlar, antecipadamente, a interpretação de tudo o que dizemos.
Há também um exercício importante na relação com os outros. Quando reconhecemos que alguém está diferente do seu padrão habitual, não precisamos de interpretar logo esse desvio como má vontade, desinteresse ou falta de respeito. Talvez a pessoa esteja mais brusca. Talvez esteja excessivamente formal. Talvez esteja a justificar-se sem necessidade ou a responder com frases que parecem fechar a conversa. Antes de reagir à superfície, podemos perguntar: o que mudou aqui? E, se houver proximidade para isso, devolver à pessoa um pouco de espaço em vez de lhe pedir ainda mais elaboração.
Não se trata de desculpar tudo em nome do stress. As palavras têm impacto e a responsabilidade pelo modo como comunicamos continua a ser nossa. Mas compreender a assinatura do stress pode devolver-nos escolha precisamente antes de essa assinatura se transformar em dano. Pode ajudar-nos a reparar mais cedo, a não personalizar imediatamente o comportamento do outro e a perceber que, por vezes, não é a nossa intenção que está a conduzir a conversa. É o nosso sistema nervoso.
No episódio 127 do Bela Questão, falo sobre estes sinais menos óbvios: a voz que muda, o ritmo que acelera, a comunicação que se torna demasiado curta ou demasiado longa, a formalidade que funciona como armadura e a hiperjustificação que nos faz responder a acusações que ninguém fez. Não para nos tornarmos vigilantes de cada palavra, mas para reconhecermos o momento em que o stress pega no microfone.
Porque talvez a pergunta mais útil não seja “como posso comunicar melhor sob pressão?”. Talvez seja: quando estou sob pressão, o que é que a minha comunicação revela antes de eu própria perceber?