Autoestima não é gostarmos de nós: é a forma como nos apreciamos

Autoestima não é gostarmos de nós: é a forma como nos apreciamos

Há uma imagem que ficou comigo desde o início desta conversa. A imagem de uma caneca.
Quem olha de fora vê uma caneca bonita, inteira, funcional. Mas quem está deste lado vê uma pequena fenda. Uma fissura quase invisível para os outros, mas impossível de ignorar para quem a conhece por dentro. E de repente, todo o olhar fica preso ali. Só naquele defeito.

Essa imagem é uma bela questão.
E é um retrato muito fiel da forma como muitas pessoas vivem a autoestima.

Neste episódio do podcast de inteligência emocional Bela Questão, conversei com a psicóloga Margarida Mendes sobre uma pergunta provocadora, mas necessária: será que autoestima é o mesmo que gostarmos de nós próprios? A resposta não é simples — e talvez por isso seja tão importante.

Autoestima não é gostar: é olhar

A autoestima não é gostarmos de nós.
É a forma como olhamos para nós.

É como se todos usássemos uns óculos para nos vermos por dentro. Se os óculos estiverem riscados, vemos tudo distorcido. Se a graduação não estiver certa, vemos desfocado. A questão não é se temos ou não defeitos — todos temos. A questão é com que nitidez e equilíbrio conseguimos olhar para o todo.

Apreciarmo-nos não significa acharmos que somos perfeitos. Significa conseguirmos reconhecer qualidades e limitações ao mesmo tempo. Ver o todo da caneca, não apenas a fenda.

Onde começa a construção da autoestima

A autoestima não aparece de um dia para o outro.
Constrói-se ao longo da vida, desde muito cedo, nas relações.

Desde crianças, vamos aprendendo quem somos através do olhar do outro. Amigos que gostam mais ou menos de nós. Adultos que reforçam ou desvalorizam. Pequenas frases aparentemente inofensivas que ficam gravadas.

Não somos um ser isolado. Somos relação.
O outro funciona como espelho — um espelho social — que nos ajuda a construir a perceção de quem somos, do que valemos e do que somos capazes.

As competências não surgem feitas. Vão sendo construídas fisicamente, intelectualmente e emocionalmente. Não somos um produto acabado. Estamos sempre em percurso.

Adolescência: quando a autoestima vacila

A adolescência é um período especialmente sensível.
O corpo já tem quase capacidade de adulto. A mente também. Mas a capacidade de gestão emocional ainda não está lá.

É um tempo de conflitos intensos, comparações constantes e inseguranças profundas. A autoestima tende a cair porque o adolescente vê tudo o que ainda não é, tudo o que acha que lhe falta. Vê-se como uma nódoa. Como alguém "incapaz", mesmo quando tem imenso potencial.

E esta fragilidade não é sinal de fraqueza. É sinal de desenvolvimento.

Baixa autoestima: quando só vemos o defeito

Quando a autoestima está baixa, não há triagem.
A pessoa não escolhe um aspeto negativo — vê tudo como negativo.

Características físicas, emocionais, comportamentais. Tudo parece errado. Os outros parecem sempre melhores, mais bonitos, mais capazes. As redes sociais amplificam esta perceção e tornam a comparação ainda mais cruel.

É aqui que a diferença entre gostar e apreciar se torna fundamental.
Posso gostar de algo superficialmente e, ainda assim, não conseguir apreciá-lo de forma profunda.

Tal como acontece com algumas modelos: sabem que são vistas como bonitas, mas continuam a olhar apenas para o detalhe que consideram defeituoso. Os óculos continuam riscados.

Autoestima ao longo da vida

A autoestima não é estática. Tem altos e baixos ao longo da vida.

Os estudos mostram momentos mais críticos:

  • adolescência
  • mulheres por volta dos 30
  • homens mais perto dos 40
  • menopausa e andropausa

Em muitos destes momentos, o fator hormonal junta-se à comparação social, às exigências externas e à sensação de falhanço ou insuficiência.

O peso do outro na nossa autoestima

O papel do outro é enorme.
Somos, muitas vezes, a forma da forma do outro.

Tal como um bolo ganha forma consoante a forma onde é colocado, também nós ganhamos forma através das relações. Quando uma criança cresce a ouvir que não é capaz, que faz tudo mal, que não deve tentar, essa mensagem fica inscrita. Mesmo quando não é dita diretamente, é transmitida pelos gestos, pelas interrupções, pela ausência de confiança.

E isso não vem de estranhos. Vem, muitas vezes, de quem está mais perto.

O que aparece em consultório na vida adulta

Na vida adulta, a baixa autoestima surge disfarçada.
Desistências. Medo de falhar. Incapacidade de avançar.

Pessoas competentes que falham porque se sentem incapazes. Pessoas que desistem antes de tentar. Pessoas que procuram validação externa extrema — seja no corpo, na profissão ou nas relações — porque não encontram valor interno.

A autoestima baixa não é falta de capacidade.
É falta de reconhecimento interno dessa capacidade.

Autoestima, arrogância e falsas modéstias

Há uma confusão frequente entre autoestima, arrogância e humildade.

A arrogância não é autoestima elevada. É uma máscara de proteção.
E a falsa modéstia não é humildade. É outra forma de insegurança.

Uma autoestima saudável permite algo muito simples e muito poderoso: discordar. Ser assertivo. Dizer "não concordo" sem agressividade e sem culpa. Ser coerente entre o que se pensa, sente e diz.

A assertividade é um excelente termómetro da autoestima, e está diretamente ligada à regulação emocional.

Um plano simples para treinar a autoestima

Se a autoestima tivesse músculos, também podia ser treinada.

Um exercício simples:

  • identificar três coisas boas que fizemos ou que aconteceram no dia
  • identificar três coisas que nos irritaram, para perceber limites e desconfortos

Não é negar o negativo. É integrar.

Este tipo de exercício liga-se muito à lógica da Escova da Mente, enquanto prática diária de literacia emocional: parar, observar, nomear e integrar o que sentimos, sem julgamento.

Como ajudar as crianças a construir autoestima

Com crianças, o essencial não é o que dizemos, mas como dizemos.

Ensinar a escolher. Permitir errar. Dar autonomia progressiva.
Comparar a criança com ela própria, não com os outros.

"Ontem não conseguias. Hoje conseguiste."
Este tipo de mensagem constrói confiança interna e prepara a criança para lidar com a comparação inevitável fora de casa.

E entre adultos?

Entre adultos, esquecemo-nos muitas vezes de reforçar.

Elogiar. Reconhecer. Dizer "gosto de ti". Dizer "fizeste um bom trabalho".
Receber um sorriso, um bom dia, um elogio sincero — tudo isto também constrói autoestima.

E connosco próprios, aprender a mudar o discurso interno.
Em dias difíceis, cuidar minimamente do corpo, arranjar-se um pouco, sair de casa. Não para agradar aos outros, mas para criar pequenas âncoras de dignidade e cuidado.

Duas frases simples podem fazer a diferença:

"Tu és capaz."

"Só mais um bocadinho."


No fim, a resposta à bela questão

A autoestima não é gostarmos de nós.
É a forma como nos apreciamos.

Com qualidades e defeitos.
Como um todo.

Tal como a caneca: perceber que tem fissuras e, ainda assim, cumpre a sua função. Se estivesse partida, a água não ficava lá dentro.

E talvez seja isso que nos cabe fazer: aprender a segurar o todo, mesmo quando vemos as fendas.